A amnésia ocidental sobre o papel soviético na vitória da Segunda Guerra Mundial

Moradores de Sofia libertada saudando os soldados do Exército Vermelho. 09.09.1944 © Sputnik

RT - No outono de 1944, 75 anos atrás, o Exército Vermelho chegou às fronteiras do Reich Alemão; cidades como Minsk, Vilnius e Brest foram libertadas em julho, quando as forças soviéticas varreram o oeste.

Hoje, a Federação Russa celebra estas vitórias com a mesma emoção e orgulho que os aliados ocidentais celebram os desembarques da Normandia e a subsequente batalha pela França, que ocorreram ao mesmo tempo.

No entanto, alguns países da UE, nomeadamente os Estados bálticos, têm tratado estas celebrações russas como “uma provocação.” Eles ainda convocaram em protesto os embaixadores russos, dizendo que o Exército Vermelho não tinha trazido libertação, mas sim apenas uma outra ocupação. A atitude deles está em contraste com os sucessivos governos alemães, cujos representantes mais antigos têm ficado felizes por estarem associados às celebrações dos Aliados por anos, apesar de seu país não só ter sido ocupado após 1945, mas também dividido em dois estados hostis.

A atitude hostil dos estados bálticos é parte de um problema muito maior, ou seja, uma amnésia ocidental auto congratulatória sobre o papel da União Soviética na Segunda Guerra Mundial. É seguro dizer que a guerra germano-russa de 1941-1945 foi de longe o conflito mais sangrento na história da humanidade; e, além disso, os combates no Oriente ofuscaram qualquer coisa que acontecesse no Ocidente. A ocupação de Hitler na Europa Ocidental não passava de um prelúdio para seu objetivo real, a sujeição da Europa Oriental e partes da União Soviética à dominação alemã em busca do projeto nazista de estabelecer o “espaço vital” (Lebensraum) para alemães étnicos que estavam lá. No entanto, o papel decisivo da URSS em derrotar a Alemanha nazista foi erradicado da memória coletiva do Ocidente - o presidente Putin nem sequer foi convidado para as celebrações na Normandia deste ano - e a guerra é lembrada apenas como uma vitória das democracias liberais contra dois totalitarismos igualmente malévolos.



Esta amnésia não é retribuída no lado russo. Embora o esforço militar soviético e, acima de tudo, o sofrimento terrível infligido à população civil (mais de 26 milhões de cidadãos soviéticos morreram na guerra, em contraste com cerca de 400.000 da Grã-Bretanha e América cada um) é negligenciado no Ocidente, os russos tratam hoje com carinho a memória da aliança Leste-Oeste que deixou a Alemanha de joelhos.

Eles lembram, inclusive em cerimônias e celebrações, o encontro fraterno entre os EUA e as tropas soviéticas no Elba em 25 de abril de 1945. Em suas declarações públicas eles dizem que a guerra foi ganha graças apenas a um esforço comum, e que somente um lado  não poderia ter prevalecido contra Hitler. Essa é uma declaração tão óbvia de fato geopolítico quanto é possível imaginar. Infelizmente, as mentes ocidentais esquecem isso, poluídas por sua obsessão de que elas incorporam valores universais que precisam necessariamente vencer porque estão do lado certo da história.

As tropas da 2ª Frente Bielorrussa libertaram a cidade de Bialystok durante a operação de Bialystok. Residentes de Bialystok cumprimentando os libertadores soviéticos. © Sputnik
As tropas da 2ª Frente Bielorrussa libertaram a cidade de Bialystok durante a operação de Bialystok.
Residentes de Bialystok cumprimentando os libertadores soviéticos. © Sputnik

Há um outro aspecto da amnésia ocidental que é perturbador. A obsessão nazista por erradicar os judeus, que foi colocada em prática à bala assim que a Polônia foi invadida e, portanto, muito antes de as notórias câmaras de gás serem construídas. Era apenas uma parte - mesmo que a mais chocante - de uma plano maior de extermínio racial que incluía eslavos.

Em junho de 1942, um acadêmico e especialista em agricultura alemão enviou a Himmler um projeto para a colonização por alemães nos territórios orientais que previam a eliminação por deportação, fome ou assassinato de dezenas de milhões de eslavos - poloneses, ucranianos, bielorrussos e assim por diante. O "Generalplan Ost" é amplamente esquecido hoje porque nos lembramos do assassinato industrial dos judeus. Mas não se deve permitir que esse horror obscureça outros horrores, especialmente porque a perseguição aos eslavos já era de conhecimentos de todos quando os planos foram apresentados para julgar a liderança nazista depois da guerra, mesmo antes que o Holocausto fosse devidamente compreendido. Em seu relatório para o presidente Truman, datado de 6 de junho de 1945, Robert Jackson, ex-procurador-geral que se tornaria o procurador-chefe em Nuremberg, citou a perseguição de poloneses e outros povos eslavos nas partes ocupadas da Europa Oriental, mas não disse nada sobre os judeus.

No entanto, "amnésia" não é uma explicação adequada para a posição oficial dos estados bálticos sobre os eventos de 1940-1945. "Desonestidade" ou "distorção" seria mais preciso para descrever a alegação desses países de que eles estavam "ocupados" pela União Soviética em 1940, e novamente depois de 1945.

Esta teoria da ocupação é usada para reivindicar a continuidade histórica dos estados bálticos após 1991 com os estados bálticos independentes entre guerras, mas é falsa. Esses estados não foram ocupados pela URSS, mas sim anexados por ela e totalmente integrados ao Estado soviético. Este é um regime totalmente diferente da ocupação porque significava que os bálticos se tornavam cidadãos soviéticos com os mesmos direitos - e o mesmo sofrimento - que os russos e todas as outras nacionalidades do estado soviético.


A teoria báltica da "ocupação" também ignora convenientemente o fato de que Letônia e Estônia, que hoje denunciam o pacto Molotov-Ribbentrop de não-agressão entre a Alemanha e a União Soviética, assinado em 23 de agosto de 1939, como um ultraje moral - eles mesmos assinaram  pactos de não agressão com Hitler em junho de 1939. (Esses tratados podem ser consultados aqui, nas páginas 49 e 105.)

Além disso, eles o fizeram não apenas para se proteger, mas também por afinidade ideológica com o nazismo; a Letônia e a Estônia se tornaram ditaduras em meados da década de 1930: o presidente da Letônia, Karlis Ulmanis, foi recebido com saudações nazistas quando tomou o poder e baniu todos os partidos políticos em 1934. Esse fato inconveniente não impediu a Letônia de eleger Guntis, o sobrinho-neto de Ulmanis, presidente após o colapso da URSS, em uma demonstração de continuidade histórica com o estado pré-guerra e para manter a ficção da ocupação. Isso é demais para  a pretensão de que os estados bálticos eram democráticos antes de 1940.

Os povos bálticos de hoje fingem que o período de "ocupação" foi de dominação étnica dos russos sobre os povos de etnia báltica, mas isso também é um absurdo. Os russos poderiam também alegar que estavam sujeitos à ditadura da Geórgia sob Stalin. O fato é que o sistema soviético era brutal para todos os cidadãos soviéticos e que mais russos sofriam sob ele do que outras nacionalidades. A elite soviética acreditava que seu sistema era o melhor do mundo e introduziu o mesmo regime em todo o território da URSS, sem discriminação nacional. É precisamente essa questão que distingue radicalmente o comunismo soviético do nazismo e, portanto, torna absurdo tratar os dois regimes como se fossem iguais.

Os russos têm todo o direito de recordar seu melhor momento com orgulho, assim como os britânicos. Em 1944, a triste história da Guerra Fria estava no futuro; ela propriamente não iniciou até 1948 e quem sabe como a própria URSS poderia ter evoluído se tivesse sido aceita no Ocidente, como propunha Stalin, uma zona-tampão na Europa central de países neutros, incluindo uma Alemanha não-alinhada? Os estados bálticos desempenharam um grande papel no Estado soviético depois de 1945, como já haviam feito no início do bolchevismo, e eles não deveriam ter suas próprias responsabilidades nacionais diminuídas, mais do que qualquer outros.

Traduzido por Pacto de Varsóvia.

07.08.2019 16:12 RT

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