Delírios sobre a Rússia (2/4)

Vista do Kremlin de Moscou

INFELIZMENTE, a ameaça de escalonamento não intencional de conflitos não é hipotética. As tropas russas e americanas freqüentemente operam nas mesmas áreas de combate na Síria, e as aeronaves e os soldados dos EUA estiveram envolvidos em um ataque devastador aos paramilitares russos em 2018. Nesse caso específico, a Rússia não avisou que os combatentes russos estavam envolvidos, e mais tarde, minimizou o incidente, notando a diferença fundamental entre a morte de militares russos privados contratados e um ataque contra suas forças regulares. Mas muitos especialistas de ambos os lados admitem, em particular, que esse incidente foi um problema que facilmente poderia resultar em uma rápida escalada. Com cada vez mais navios e aviões da OTAN a operarem em estreita proximidade com o território russo e os seus homólogos russos desafiando-os com audácia provando a sua própria determinação, o potencial para um confronto no ar ou nos mares torna-se cada vez mais real. Mesmo assim, não teve discussões significativas no Congresso sobre como o naufrágio de um navio ou queda de um avião poderia resultar em uma guerra nuclear acidental entre a Rússia e os Estados Unidos.

Os principais comandantes russos estão se tornando cada vez mais francos sobre como a Rússia poderia reagir no caso de um confronto com os Estados Unidos ou a OTAN. A agência de notícias russa TASS informou que o tenente-general Viktor Poznikhir, primeiro vice-chefe do Departamento Geral de Operações do Estado-Maior da Rússia, "advertiu os países, que abrigam ou receberão elementos do escudo antimísseis americano, que essas instalações se tornarão alvos prioritários para serem destruídos." Ainda mais sinistra foi a mensagem do ex-chefe do Estado-Maior General Nikolai Makarov, que afirmou que os Estados Unidos estavam trabalhando para desenvolver uma capacidade de ataque que pudesse forçar a Rússia a tomar uma "decisão sobre o uso preventivo da força…em um período de tensão elevada.”

O novo poder militar da Rússia, combinado com sua crescente ousadia, deve ser levado a sério. A postura da Rússia reflete mais do que a confiança em seu novo equipamento ou a disposição de emitir alertas intimidatórios de alto nível, mas fala sobre uma grande mudança na mentalidade russa. A Rússia desenvolveu um novo modo de nacionalismo acompanhado por uma genuína evolução não apenas em sua atitude em relação ao Ocidente e a utilidade da força militar como instrumento de política, mas também sobre o que a Rússia vê como seus interesses estratégicos fundamentais.


De fato, a situação dificilmente foi mais perigosa. O governo Putin alega não estar preocupado com a perspectiva de uma corrida armamentista nuclear com os Estados Unidos, pois argumenta que a potência de suas novas armas, mais notavelmente as hipersônicas, torna qualquer potencial vantagem numérica americana em seu arsenal nuclear insignificante e, mais fundamentalmente, dá à Rússia a capacidade de superar qualquer sistema de defesa antimíssil. Em vez de confrontar essas questões, o sistema de segurança nacional americano está agindo como se não precisasse sequer considerar a possibilidade de se envolver em uma diplomacia significativa e como se a Rússia não representasse uma ameaça iminente.

Durante a perestroika e os primeiros anos de Boris Yeltsin, a Rússia celebrou entusiasticamente a democratização, os valores humanos universais e sua associação com o Ocidente. Não mais. A Rússia mais uma vez abraçou sua auto-imagem tradicional: a de um Estado de segurança nacional, cercado por nações hostis, que se orgulha de ser mais temido do que amado. Ao longo da história, a Rússia, apesar de sua antiga pretensão de ser a “Terceira Roma”, posicionou-se não como uma cidade reluzente em uma colina, mas como uma fortaleza solitária e orgulhosa, preparada para fazer o que for necessário para defende a si própria e de sua  posição única no mundo. De fato, a recente tendência do Estado russo de glorificar a vitória soviética na Segunda Guerra Mundial revela um sentimento cada vez mais prevalente na Rússia de que o sacrifício de vinte e seis milhões de soldados soviéticos não era necessário apenas para a preservação da civilização russa, mas também demonstra um genuíno excepcionalismo russo na condição de sua disposição para absorver um nível sobre-humano de sacrifício. Algo dessa mentalidade já foi capturado pelo grande poeta russo e veterano da Segunda Guerra Mundial Bulat Okudzhava, que escreveu com uma combinação de orgulho e tristeza sobre a atitude das tropas russas durante a guerra:

O planeta está queimando e girando/

Fumaça cobre a pátria/

Nós não nos contentaremos com nada além da vitória/

Uma vitória para todos, e nenhum preço é alto demais

De acordo com Alexander Tsipko, um importante especialista em política russa que já foi considerado um nacionalista esclarecido por ver como uma ilusão o desejo de Moscou tornar-se parte do Ocidente, o país passou por mudanças perturbadoras em sua psique política nacional. Essa mudança foi marcada pela crescente desilusão tanto com o Ocidente quanto com a democracia que se tornou predominante durante o fim da era Yeltsin, após a amarga experiência da morte econômica da Rússia e a intervenção da OTAN na Iugoslávia. Tsipko escreve: “Eu concordo com aqueles que acreditam que é o próprio caráter nacional que é, em certa medida, a causa da militarização da consciência”. Ele acrescenta: “É importante entender que a militarização da consciência traz a matança do instinto da auto-preservação. Não é só esperar a morte, mas criar o culto da morte, tornando-a sagrada".

COMO UMA ressalva para isso, o que você sente sobre Vladimir Putin e sua disposição de quebrar as regras da ordem internacional e habitualmente negar todas as acusações da má conduta russa, ele ainda agiu como um líder cauteloso e calculista. Putin não é cegamente militarista, mas sempre considera as conseqüências de suas ações, mesmo que nem sempre tenha conseguido antecipá-las corretamente (como foi o caso da interferência russa nas eleições dos EUA). Enquanto a maioria dos russos continua orgulhosa da tomada da Crimeia por seu país, pesquisas de opinião mostram que esses sentimentos nacionalistas não são mais um grande princípio organizador do pensamento político russo. Entre as elites e o povo russo, há um crescente sentimento de fadiga com os crescentes custos das grandes ambições de poder.

Não obstante, as observações de Tsipko revelam muito sobre como a Rússia poderia responder a um confronto com os Estados Unidos e seus aliados. Se a sobrevivência do país, a dignidade da civilização russa e, sim, a legitimidade do regime estão em jogo, a Rússia pode estar preparada para aceitar riscos muito maiores e absorver perdas muito maiores do que seria aceitável para as democracias ocidentais.


O senso de isolamento e vitimização da Rússia também está enraizado em uma compreensão do colapso da União Soviética que difere enormemente da narrativa ocidental comum. Muitos russos vêem seu país como um equivalente moderno da Alemanha de Weimar, desmembrado pelas potências vitoriosas que são responsáveis ​​pela catástrofe econômica, sofrimento humano e grande humilhação do povo russo. A maioria dos cidadãos russos se identifica com a afirmação de Putin de que "o fim da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século" e acredita que "para o povo russo, tornou-se uma verdadeira tragédia. Dezenas de milhões de nossos cidadãos e compatriotas viram-se além dos limites do território russo.” Embora nem Putin nem a maioria dos russos considerem a recriação da URSS viável ou desejável,

Tão tóxico quanto a mentalidade de vitimização era para o povo da Alemanha de Weimar, os perigos produzidos pela sua reemergência na Rússia podem ser ainda maiores. Enquanto a Alemanha foi decisivamente derrotada na Primeira Guerra Mundial, há um consenso na Rússia de que a URSS nunca sofreu tal derrota na Guerra Fria. A União Soviética nunca perdeu uma guerra como os alemães ou sucumbiu aos movimentos anticolonialistas como os impérios britânico, francês e espanhol fizeram. Em vez disso, a maioria dos russos acredita que, por conta própria, eles abandonaram os laços do império comunista.

ENQUANTO foi Mikhail Gorbachev e a liderança soviética quem iniciou a perestroika e eventualmente supervisionou o desmantelamento do sistema econômico soviético, foi Boris Yeltsin e a liderança do que viria a ser a Federação Russa que ajudou a acelerar o colapso soviético. A Federação Russa proclamou pela primeira vez sua soberania sobre a União Soviética em 12 de junho de 1990, numa época em que apenas dois outros estados (Lituânia e Letônia) haviam anunciado sua soberania. Quando os radicais do governo Gorbachev tentaram usar a força militar contra líderes bálticos separatistas no início de 1991, foi Yeltsin quem declarou seu total apoio à Letônia e à Lituânia e convocou todos os cidadãos russos servindo nas forças armadas soviéticas a resistir a qualquer ordem de usar a força contra os separatistas.

Quando esses mesmos radicais soviéticos tentaram um golpe em Moscou em 1991 para remover do poder Gorbachev e seus reformadores, também foi Yeltsin e seus partidários que foram fundamentais na supressão da rebelião. Enquanto isso, com exceção das repúblicas bálticas e da Geórgia, que também proclamaram sua própria soberania, as lideranças da maioria dos estados soviéticos sentaram-se em cima do muro esperando para ver quem ficaria no topo em Moscou. Isto foi certamente verdade no governo ucraniano liderado pelo antigo funcionário do Partido Comunista Leonid Kravchuk, que tinha um histórico em condenar o nacionalismo ucraniano e defender o sistema comunista. Foi a vitória de Yeltsin em Moscou, que abriu o caminho para uma reunião da liderança russa, ucraniana e bielorrussa em Brest. Lá, sem consultar as outras repúblicas, violando a lei soviética, e sem nenhuma negociação séria sobre como os novos estados independentes governariam seus relacionamentos no futuro, esses líderes assinaram documentos que, embora vagos e sem poder legal real, claramente implicavam que a URSS não desapareceria por completo, mas se tornaria uma confederação onde as fronteiras internas seriam de importância incerta. Consequentemente, a maioria na Rússia não via o colapso da URSS como evidência de sua fraqueza, mas sim de sua vitória, dando-lhes o direito de respeitar e até mesmo confiar nos governos ocidentais. (continua...)

Traduzido por Pacto de Varsóvia.

8 de agosto de 2019 The National Interest

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