Delírios sobre a Rússia (3/4)

O Presidente da Rússia Valdimir Putin discursando frente a Catedral de São Basílio

Um vislumbre das sensibilidades russas era perceptível em março de 1994, quando viajei com Nixon até Moscou para conhecer o presidente russo Boris Yeltsin e seus principais funcionários. Nossa reunião havia sido cancelada antecipadamente com o governo Clinton. Mas as reuniões privadas de Nixon com líderes da oposição, como Alexsandr Rutskoi e Gennady Zyuganov, levaram Yeltsin a irromper em fúria, declarando que ele estava "profundamente ofendido pessoalmente" por Nixon se encontrar com membros da oposição. Yeltsin reclamou: "Deixe-o saber que a Rússia é um grande país e você não pode brincar com ela assim."

Consequentemente, a maioria dos russos se ressentia profundamente de ser tratada como um país derrotado pelo Ocidente. Depois da Guerra Fria, os russos previram que seriam vistos não como um adversário derrotado, mas como um aliado corajoso que desempenhou um papel indispensável na destruição do bloco soviético para alcançar uma vitória comum na Guerra Fria. Apoiando-se repetidamente contra Moscou em cada uma de suas disputas pós-Guerra Fria com seus novos vizinhos, o Ocidente tratou a Rússia como um Estado derrotado que aceitou uma rendição incondicional e agora tentava, em desrespeito a suas obrigações legais, estabelecer a hegemonia sobre seus vizinhos. As elites políticas russas, inicialmente fortemente pró-ocidentais, sentiram-se traídas e ofendidas. Eles viram uma imposição do Ocidente.

Muitos russos também sustentam que ações insidiosas das potências ocidentais contribuíram enormemente para o colapso soviético. Há muito pouca evidência para apoiar essa afirmação; em agosto de 1991, o presidente George H.W. Bush argumentou contra a independência total da Ucrânia, afirmando que “os americanos não apoiarão aqueles que buscam a independência para substituir uma tirania distante por um despotismo local. Eles não apoiarão aqueles que promovem um nacionalismo suicida baseado no ódio étnico.” No entanto, a classe política russa estava cada vez mais convencida de que seu país fora intencionalmente destruído pelas potências ocidentais, mascaradas como amigas da URSS durante a perestroika enquanto secretamente tentavam sabotar Estado soviético. É através do prisma dessas crenças que se deve olhar para entender como a Rússia poderia agir no caso de um confronto militar com o Ocidente.

AS QUEIXAS DA RÚSSIA, reais ou imaginárias, não são justificativas para os Estados Unidos abandonarem a busca de seus interesses e permitirem o domínio russo na Eurásia. E não há dúvida de que a Rússia e os Estados Unidos são adversários e que, neste ponto, as desculpas provavelmente serão vistas por Moscou como um sinal de fraqueza a ser explorada, e não retribuída.


A administração Trump está certa em insistir em um aumento significativo no orçamento militar dos EUA, e os funcionários do governo também estão certos em insistir que as alianças são uma importante fonte de força norte-americana que precisa ser reformada em vez de descartada. Da mesma forma, quando os interesses dos EUA e da Rússia colidem, como aconteceu com o Irã, a Síria e a retirada de certos acordos de controle de armas, os Estados Unidos devem ser capazes de defender seus interesses de maneira vigorosa, apesar da oposição de Moscou. Seria excessivamente otimista esperar uma amizade ou parceria real com a Rússia em um futuro próximo, especialmente considerando a hostilidade que muitos na elite russa sentem hoje em relação aos Estados Unidos. Mesmo assim, mesmo os críticos mais severos dos EUA contra a Rússia não defenderiam o início de uma guerra para derrubar o governo de Putin. Os interesses americanos e russos se sobrepõem em várias questões, desde preocupações com a ascensão da China até evitar a proliferação nuclear e manter os sistemas de estabilidade das finanças e do comércio internacional. A América não deve impedir a possibilidade de cooperação sobre questões de interesse mútuo, simplesmente para impedir Putin de marcar pontos políticos.

Embora seja legítimo ver a Rússia como adversária da América, é errado abordar a relação através de da visão de soma zero, onde para um ganhar, o outro deve necessariamente perder. Pelo contrário. Algo que pode ferir a Rússia também pode prejudicar os Estados Unidos; assim como não deveríamos encorajar o aquecimento global na esperança de que um aumento nas temperaturas causasse um pouco mais de danos à Rússia do que seria para nós, seria tolice esperar por uma derrota na Síria, quando um evento como esse poderia causar ressurgimento do ISIS, o que seguramente prejudicaria os interesses americanos.

Também devemos ser realistas sobre nossa própria conduta quando consideramos o que queremos da Rússia.

A interferência da Rússia no processo político americano foi séria e real, mas dificilmente foi inesperada e nem motivo para justa indignação. A ex-secretária de Estado, Hillary Clinton, apoiou abertamente os grupos de oposição na Rússia e expressou simpatia pelas manifestações de massa contra o governo, cujos organizadores não fizeram segredo do seu objetivo de retirar Putin do poder. Em março de 2011, o vice-presidente Joe Biden disse aos líderes da oposição russa que seria "ruim para o país e para si mesmo" se Putin tentasse concorrer à presidência no ano seguinte, segundo Boris Nemtsov, o crítico de Putin. Falei com pessoas que estiveram presentes na reunião de Biden com a oposição russa, e não havia dúvida em sua mente que Biden pretendia pressionar totalmente Putin a não concorrer novamente. Biden e Clinton estavam dando as cartas; o governo Obama não escondeu suas intenções, dando milhões de dólares para grupos de oposição política na Rússia. Hoje, os principais democratas estão exigindo que a Rússia se abstenha de intervir nas eleições de 2020, mas que implicações terão tais exigências para a própria disposição americana de tomar partido nas disputas políticas russas?


De fato, o que os arquitetos desse esforço anterior de intervir nas eleições russas esperavam que Putin fizesse em resposta? Se eles acreditassem que ele se curvaria sob a pressão americana, isso foi uma enorme falha de julgamento que indicou a pouca compreensão do governo Obama de como Putin, um ex-agente da KGB, agiu. Se eles não esperavam que Putin desistisse e pedisse misericórdia, por que não contavam com uma retaliação? Putin tinha recursos suficientes para atacar os EUA secretamente e abertamente, e agora está claro que esses esforços começaram a tomar forma em 2014, antes que Trump decidisse concorrer.

Por último, mas não menos importante, devemos estar dispostos a deixar claro que não estamos obrigados a moldar a política americana exclusivamente para nos alinharmos com os caprichos de nossos aliados. As relações entre os antigos estados da cortina de ferro são notavelmente complexas e repletas de séculos de uma história dolorosa, tornando-os propensos a entrar em conflito uns com os outros. São precisamente contra esses conflitos regionais europeus que George Washington aconselhou veementemente a não se envolverem, afirmando em seu discurso de despedida que os Estados Unidos deveriam evitar  por em risco “nossa paz e prosperidade nas ciladas da ambição, rivalidade, interesse, humor ou dos caprichos da Europa.

WASHINGTON TAMBÉM falou sobre aqueles “cidadãos ambiciosos, corruptos ou iludidos”, que ficam tão enamorados com as causas de seus países preferidos, que eles não apenas perdem a perspectiva dos interesses americanos, mas estão até preparados para acusar os que discordam deles pela sua falta de patriotismo e, em tempos modernos, de ser um lacaio de Putin. Não é preciso ser um defensor do presidente Trump para entender que esses pseudo-patriotas não servem bem aos interesses americanos ou aos valores americanos. Em abril de 2019, 73% do povo ucraniano rejeitou o presidente Petro Poroshenko, que administrava uma plataforma nacionalista e anti-russa. Enquanto poucos especialistas americanos e europeus estavam dispostos a reconhecer que o governo de Poroshenko era corrupto, inepto e, segundo a mídia ucraniana, disposto a usar dinheiro para influenciar o processo político americano, de repente eles estavam dispostos a fazer tais pronunciamentos assim que os resultados das eleições fossem consolidados. A América não pode permitir que a designação de um “aliado” torne imune qualquer país contra desacordos ou críticas. Quando as apostas são tão altas quanto a guerra nuclear, os Estados Unidos não podem se dar ao luxo de conduzir uma política externa baseada nos caprichos de seus eleitorados domésticos ou nos sentimentos daqueles cidadãos "iludidos" sobre os quais Washington advertiu.

Grandes presidentes americanos do passado sabiam ser aliados leais, mas fazê-lo de maneira calibrada e discutida. O presidente Dwight D. Eisenhower compreendeu plenamente a importância da aliança transatlântica, tendo lutado para preservá-la na Segunda Guerra Mundial, mas em 1956 recusou-se a apoiar a Grã-Bretanha e a França durante a crise de Suez quando isso contrariava o interesse nacional dos EUA. Da mesma forma, apesar de ser um amigo genuíno de Israel, Ronald Reagan estava disposto a condená-lo por ter-se excedido no Líbano em 1982. Mas hoje, é considerado moralmente inaceitável sugerir que a América não seja obrigada a apoiar de corpo e alma as ações de nossos aliados e amigos. É por isso que, sempre que os estados bálticos, a Geórgia e a Ucrânia têm alguma desavença com a Rússia, a América automaticamente denuncia a Rússia como a agressora, independentemente do contexto histórico, do contexto geopolítico e até mesmo, como no caso da guerra da Rússia com a Geórgia em 2008, em que esta atacou as tropas daquela primeiro.

Traduzido por Pacto de Varsóvia.

8 de agosto de 2019 The National Interest

Postar um comentário

0 Comentários