Quando marinheiros dos EUA enfrentaram ‘Ivan o Louco’ debaixo d’água

08 DE JANEIRO DE 2018 Russia Beyond

Submarinos nucleares soviéticos da classe Echo durante missão em 1973
Submarinos nucleares soviéticos da classe Echo durante missão em 1973


Embora os estadunidenses ficassem aterrorizados com as inusitadas manobras táticas de submarinos da URSS, elas eram rotina para a Marinha soviética. Até que os russos provaram do próprio veneno durante incidente nuclear.

Ao longo do período da Guerra Fria, eram constantes os confrontos entre submarinos soviéticos e estadunidenses. Os submarinos estratégicos da URSS eram perseguidos por submarinos de ataque dos Estados Unidos, e vice-versa.


Segundo Ígor Kurdin, ex-capitão de submarinos de mísseis balísticos, como K-241, K -84 e K-40, a principal tarefa de um submarino nuclear era navegar mais rápido que os veículos que o perseguiam: “Um ataque estratégico vital não poderia ser realizado se houvesse um submarino inimigo no seu rastro.”

Vencer esse jogo de gato e rato era complicado pelo fato de que cada submarino tinha uma “zona morta” – área atrás do navio que o sonar não podia “ouvir” devido ao ruído de seus próprios mecanismos e propulsores. Os submarinos de ataque dos EUA se escondiam nessa zona e seguiam os soviéticos sem quaisquer vestígios.

“Havia, entretanto, uma manobra tática especial para detectar esses submarinos, chamada ‘verificar ausência de rastreamento’”, explicou Kurdin ao Russia Beyond. Com o tempo, os estadunidenses inventaram outro nome para a ação: “Ivan o Louco.”

Nesse movimento, os submarinos soviéticos executavam manobras de 90 e até 180 graus para detectar objetos na “zona morta”.


Prazer, “Ivan o Louco”

Essa expressão surgiu pela primeira vez depois de um incidente com o submarino nuclear soviético K-108 da classe Echo e o estadunidense USS Tautog (SSN-639) da classe Sturgeon, em setembro de 1970, no mar de Okhotsk, não muito longe da península de Kamtchatka.

O Tautog estava seguindo a embarcação soviética a menor distância possível sem ser detectado pelos russos. De repente, o K-108 começou uma série de curvas acentuadas e desapareceu da tela de rastreamento do SSN-639.

Comandante soviético submarino varre o horizonte através de binóculos em 1968
Comandante soviético submarino varre o horizonte através de binóculos em 1968

Os estadunidenses não conseguiram detectar sua localização, até que o convés do Tautog colidiu contra a barriga do submarino soviético. Embora não tenha gerado acidentes ou danos severos, ambos os submarinos voltaram a seus portos de origem.

A Marinha dos EUA ficou em estado de choque e, inicialmente, não sabia como reagir a à perigosa e imprevisível manobra. Após o incidente, os marinheiros do país receberam ordens de manter uma distância maior dos submarinos soviéticos.

A única maneira de contrapor “Ivan o Louco” era desligar totalmente os motores e operar em modo silencioso para não ser ouvido. No entanto, o submarino funcionava por inércia, de modo que o choque em 1970 não foi um caso isolado.


Perigo próprio

Houve, entretanto, um episódio quando a manobra resultou no naufrágio de um submarino soviético. Mas cabe lembrar: sem o envolvimento dos Estados Unidos.

Em setembro de 1986, o submarino K-219 seguia viagem rumo ao Atlântico. Um pequeno vazamento no sexto silo foi ignorado, mas logo se transformou em um grande problema, e os marinheiros se viram obrigados a bombear a água duas vezes por dia. Foi então que “Ivan” serviu de catalisador para o acidente que se seguiu.

A manobra complicada levou à despressurização total do silo, que se encheu de água. A explosão de uma ogiva convencional ejetou um míssil nuclear R-27 para o oceano.

A tripulação trouxe o submarino para a superfície, causando, porém, a morte de um dos envolvidos no incidente – todos os demais membros foram salvos por navios civis russos. No caminho de volta, o K-219 acabou afundando quase 6 quilômetros de profundidade no mar dos Sargaços, onde permanece até hoje.

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