Paraíso Pashtun: Como os EUA ajudaram seu adversário a ter sucesso na Guerra do Afeganistão

2 de março de 2020 The National Interest

Paraíso Pashtun: Como os EUA ajudaram seu adversário a ter sucesso na Guerra do Afeganistão

Os estadunidenses tendem a pensar em todas a suas guerras de maneira simplificada, onde os conflitos têm início e fim definidos e onde os mocinhos são claramente distinguíveis dos bandidos. Esse modelo foi inadequado para o longo e confuso conflito no Afeganistão.

Parece que a expedição militar dos EUA no Afeganistão, iniciada no outono de 2001, pode finalmente estar chegando ao fim. Obstáculos significativos ainda precisam ser superados, envolvendo, entre outras coisas, o Talibã tendo que cumprir um padrão vago de redução, embora não cessar, suas operações militares. Mas a conclusão para direcionar o envolvimento estadunidense na guerra do Afeganistão parece mais próxima do que em qualquer outra época anterior, nos mais de dezoito anos desse conflito.


Espere muitos comentários nas próximas semanas sobre o que correu bem e o que correu mal - especialmente mal - na guerra do Afeganistão. Haverá avaliações retrospectivas de táticas e estratégias e de coisas que o deslocamento das tropas teria começado tarde demais ou terminado cedo demais. A maioria dos comentários provavelmente esquecerá os aspectos mais fundamentais da experiência estadunidense no Afeganistão - e que mais merecem ser incluídos nos livros de história e o que são mais relevantes para evitar guerras mais longas no futuro. Esses fundamentos têm menos a ver com táticas e estratégias e mais com padrões políticos e perceptivos mais amplos dos Estados Unidos, incluindo os a seguir.

As forças dos EUA foram enviadas para o Afeganistão em 2001 em resposta direta ao ataque terrorista de 11 de setembro.
As forças dos EUA foram enviadas para o Afeganistão em 2001 em resposta direta ao ataque terrorista de 11 de setembro.

Ficar preso na história do terrorismo

As forças dos EUA foram enviadas para o Afeganistão em 2001 em resposta direta ao ataque terrorista de 11 de setembro, perpetrado pela Al Qaeda de Osama bin Laden em um momento em que este grupo era um convidado da parte controlada pelo Talibã no Afeganistão. Os trágicos eventos do 11 de setembro criaram um trauma nacional tão grave que remodelaram a maneira como os estadunidenses pensam sobre terrorismo e contraterrorismo. Tornou-se um modelo no qual foram formadas as percepções sobre terrorismo e combate ao terrorismo, mesmo que o modelo nem sempre esteja em conformidade com uma realidade mais ampla.

Um aspecto importante dessa percepção foi que a luta contra o terrorismo passou a ser vista principalmente como uma luta militar, com o Afeganistão sendo a frente de batalha inicial em uma "guerra ao terror". Qualquer recuo nessa luta militar era visto, erroneamente, como recuo do próprio contraterrorismo.


O modelo também promoveu uma falha no entendimento das circunstâncias especiais, incluindo a história da luta anterior dos mujahedins contra os soviéticos, e que levou o Afeganistão a ser associado a Bin Laden, Al Qaeda e uma ameaça terrorista à pátria dos EUA em 2001 - circunstâncias improváveis de serem replicadas em futuras ameaças terroristas contra os Estados Unidos. O Afeganistão passou a ser visto como o paraíso terrorista por excelência, embora até que extensão esse refúgio poderia ser importante, muitos outros lugares poderiam cumprir esse papel. O Afeganistão foi visto desempenhando essa função, embora muitos dos preparativos críticos para a operação do 11 de Setembro tenham ocorrido na Europa, nos Estados Unidos e no ciberespaço.

A "guerra ao ao terror" promoveu uma falha no entendimento das circunstâncias especiais, incluindo a história da luta anterior dos mujahedins contra os soviéticos
A "guerra ao ao terror" promoveu uma falha no entendimento das circunstâncias especiais, incluindo a história da luta anterior dos mujahedins contra os soviéticos

Medo político de resultados imperfeitos

Outro legado estadunidense do trauma do 11 de setembro foi uma atitude de tolerância zero em relação ao terrorismo. Mesmo uma única morte estadunidense de um único ataque terrorista foi considerada algo que poderia e deveria ser evitado, independentemente dos custos de tentar fazê-lo. Nem sempre foi esse o caso. A década de 1970, por exemplo, viu muitos ataques terroristas nos Estados Unidos, perpetrados por uma variedade de atores estrangeiros e domésticos, sem o contraterrorismo se aproximar das prioridades nacionais e sem a necessidade de iniciar uma "guerra ao terror". Como resultado do novo padrão de tolerância zero, os líderes políticos dos EUA tiveram que conviver com o medo de que seus oponentes políticos os crucificariam caso retirassem tropas do Afeganistão e os Estados Unidos mais tarde sofreriam algum tipo de ataque terrorista com alguma conexão com o Afeganistão.


Viés para arrastar a missão

O antigo termo “arrastar a missão” atesta a prevalência do que esse termo descreve. A dinâmica dupla de como a missão arrastou-se funcionou na guerra do Afeganistão, semelhante à maneira como surgiu com outras questões. Primeiro, os líderes que buscam apoio público para esforços dispendiosos, como uma guerra em uma terra distante e meio esquecida, tendem a retirar todas os impedimentos retóricos para fazê-lo. Assim, os custos e baixas incorridos na tentativa de derrotar o Talibã eram necessários não apenas para vencer o terrorismo, mas também para construir uma democracia estável no Afeganistão.

Os custos e baixas incorridos na tentativa de derrotar o Talibã eram necessários não apenas para vencer o terrorismo, mas também para construir uma democracia estável no Afeganistão.
Os custos e baixas incorridos na tentativa de derrotar o Talibã eram necessários não apenas para vencer o terrorismo, mas também para construir uma democracia estável no Afeganistão.

Segundo, uma vez realizada a intervenção, seguiu-se uma sensação de propriedade estadunidense do problema e, com ele, mudou os padrões para decidir se deveriam ou não permanecer. Questões que em primeiro lugar nunca teriam sido um motivo para a guerra no Afeganistão, mais tarde se tornaram razões para não abandoná-lo. A preocupação com repressão das mulheres sob o regime restaurado do Talibã, por exemplo, tornou-se uma dessas questões, mesmo que não tivesse sido um casus belli para iniciar a intervenção.

Efeitos da Guerra do Iraque

O grande experimento neoconservador na tentativa de refazer a política e a economia do Oriente Médio através da mudança de regime no Iraque teve efeitos deletérios na política dos EUA em relação ao Afeganistão de duas maneiras diferentes sob duas administrações diferentes. Para o governo George W. Bush - que iniciou a marcha rumo à guerra no Iraque logo após o 11 de setembro e, após uma enorme campanha promocional para vender a guerra, que a lançou em março de 2003 - o Iraque foi uma grande distração do Afeganistão. O maior custo nesse sentido não foi medido em tropas e tanques, mas no foco e atenção dos formuladores de políticas. A perda de foco resultante no Afeganistão foi um fator importante para perder o que seria um ponto de saída adequado, apenas algumas semanas após a retirada da Al Qaeda de sua base e o Talibã ter sido deposto do poder em Cabul.


Para a administração subsequente de Barack Obama, a "boa guerra" no Afeganistão contrastava com a guerra ruim no Iraque. Tendo estado do lado certo o tempo todo ao se opor à loucura da Guerra do Iraque, Obama sentiu um motivo extra para continuar em curso no Afeganistão e até para aumentar temporariamente os níveis de força dos EUA para mostrar que ele não era um pacifista covarde.

A complexa geografia étnica do Afeganistão complicou ainda mais o problema dos estadunidenses.
A complexa geografia étnica do Afeganistão complicou ainda mais o problema dos estadunidenses.

Incompreensão da visão de guerra e paz de outros povos

Os estadunidenses tendem a pensar em todas as suas guerras de uma maneira simplificada, onde os  conflitos têm início e fim definidos e que os mocinhos são claramente distinguíveis dos bandidos. Esse modelo foi inadequado para o longo e confuso conflito no Afeganistão. A intervenção dos EUA no Afeganistão foi precedida por décadas de guerras com mudanças constantes. Essa história incluiu golpes e insurgências na década de 1970, ocupação soviética e resistência à ocupação na década de 1980 e na década de 1990, lutas entre senhores da guerra posteriormente varridos pelo Talibã. Revisões de alianças e troca direta de lados têm sido comuns. A complexa geografia étnica do Afeganistão complicou ainda mais o problema dos estadunidenses. Por exemplo, os tadjiques que dominaram as forças locais mais fortemente envolvidas na expulsão do Talibã de seu posto de poder após a intervenção dos EUA são uma minoria que nunca poderia garantir uma posição dominante no Afeganistão.

A maneira mais prudente dos Estados Unidos saírem dessa situação confusa implicaria a adaptação à visão de guerra e paz dos afegãos, nos quais os conceitos de vitória e derrota e de mocinhos e bandidos desempenham um papel muito menor do que fazer uma salada de barganhas entre chefes locais. Mas os Estados Unidos nunca pareceram adaptar-se e continuaram pensando em termos de alcançar a vitória sobre o Talibã em todo o país. Mais de dezoito anos depois, suas tropas ainda estão lá.

Paul R. Pillar é editor colaborador do The National Interest e autor de Why America Misunderstands the World.

Traduzido por Pacto de Varsóvia.

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