A União Soviética construiu seu caça MiG-15 graças a um aliado dos EUA

27 de outubro de 2019 The National Interest

A União Soviética construiu seu caça MiG-15 graças a um aliado dos EUA

A União Soviética teve de agradecer à falida Grã-Bretanha pelo jato MiG-15.


No final da Segunda Guerra Mundial, estava ficando claro que as enormes frotas de aviões a hélice de motor a pistão usadas no conflito logo seriam substituídas pelos muito mais rápidos aviões a jato. A Alemanha nazista e o Reino Unido haviam utilizado jatos em combate, e os Estados Unidos e o Japão estavam perto de fazê-lo quando a guerra terminou. Apenas a União Soviética parecia estar bem atrás.

No entanto, o Exército Vermelho capturou numerosos cientistas, instalações de pesquisa e protótipos de tecnologias quando chegou ao leste da Alemanha - incluindo os turbojatos Jumo 004 e BMW 003, projetados respectivamente para os caças nazistas Me-262 e He-162 de madeira. Em 1945, os fabricantes Mikoyan-i-Gurevich e Yakovlev foram instruídos a desenvolver os primeiros caças a jato soviéticos usando os motores alemães.


No início de 1946, eles desenvolveram o Yak-15, movido pelo Jumo e o mais veloz MiG-9, com o BMW. No entanto, os turbojatos alemães tinham uma vida útil notoriamente curta e não conseguiam gerar o empuxo necessário; portanto, para seus próximos grandes projetos de caças a jato, os engenheiros soviéticos sugeriram a aquisição de turbojatos britânicos Rolls-Royce Nene de compressor centrífugo que poderiam produzir 2.268 quilogramas de empuxo.

Os soviéticos prontamente fizeram a engenharia reversa do Nene para a produção nacional do turbojato RD-45.
Os soviéticos prontamente fizeram a engenharia reversa do Nene para a produção nacional do turbojato RD-45.

"Que tolo nos venderá seus segredos?"
Foi dito que Stalin comentou a ideia. Mas quando o projetista soviético Viktor Klimov visitou o Reino Unido em 1946, o governo trabalhista britânico se mostrou inesperadamente receptivo. Londres estava lutando para pagar os Estados Unidos por equipamentos militares adquiridos através do programa Lend-Lease, e o Ministro do Comércio Stafford Cripps parecia não compreender as crescentes tensões da Guerra Fria. Como resultado, o Reino Unido vendeu dezenas de Nenes para a Rússia em 1946 e 1947, sob a condição de que não fossem usados ​​para fins militares.

Os soviéticos prontamente fizeram a engenharia reversa do Nene para a produção nacional do turbojato RD-45 - foram seguidos depois pelo VK-1 mais potente, capaz de 2.721 quilogramas de empuxo. Ironicamente, os britânicos usariam o Nene de forma limitada, embora os jatos F9F Panther da Marinha dos EUA usassem uma versão criada sob licença chamado J42.


Mikoyan-i-Gurevich desenvolveu o caça com o turbojato Klimov VK-1 montado atrás do piloto e asas enflechadas para trás em um ângulo de 35 graus. Apresentadas anteriormente no Me 262, as asas enflechadas oferecem desempenho superior ao aproximar-se da velocidade do som (cerca de 965 a 1.207 quilômetros por hora), retardando a formação de ondas de choque. O MiG-15bis resultante podia atingir uma velocidade máxima de 1.091 km/h, 161 km/h mais rápido que os jatos britânicos Meteor F8 e F-80 Shooting Star dos EUA, ao mesmo tempo em que exibia excelente manobrabilidade e velocidade de subida.


Os soviéticos sabiam que tinham um vencedor no MiG-15, codinome "Fagot" pela OTAN e produziram 12.000 do velozes jatos. Até mais de 6.000 seriam construídos sob licença pela Checoslováquia, Polônia e China.

Mikoyan-i-Gurevich desenvolveu o caça com o turbojato Klimov VK-1 montado atrás do piloto e asas enflechadas para trás em um ângulo de 35 graus.
Mikoyan-i-Gurevich desenvolveu o caça com o turbojato Klimov VK-1 montado atrás do piloto e asas enflechadas para trás em um ângulo de 35 graus.

Os MiG-15 pilotados pelos soviéticos viram ação pela primeira vez em apoio aos comunistas chineses em abril de 1950, quando abateram um caça nacionalista chinês P-38 Lightning e um bombardeiro B-24. Quando a Coreia do Norte invadiu a Coreia do Sul em junho de 1950, a substancial força de antigos aviões de guerra com motores a pistão foi rapidamente suplantada quando os caças estadunidenses intervieram. Em seguida, os bombardeiros estadunidenses B-29 Superfortress começaram a bombardear em retaliação cidades e bases militares ao longo da fronteira China-Coreia do Norte. Mais conhecido pelos bombardeios atômicos no Japão, o B-29 podia transportar cargas pesadas à dezenas de milhares de metros de altura, era relativamente rápido em comparação aos bombardeiros anteriores da Segunda Guerra Mundial e repleto de metralhadoras defensivas.

Em outubro de 1950, os controladores terrestres chineses e soviéticos começaram a direcionar seus MiG-15 para emboscar os ataques aéreos da ONU. A excelente taxa de subida do MiG-15 significava que ele poderia atingir grandes altitudes e emboscar os bombardeiros por cima, ao mesmo tempo que se movia rápido demais para que os artilheiros de defesa os atingissem. Além disso, os MiGs superavam os caças de escolta F-80 dos EUA, deixando para trás os caças mais antigos Corsair e Mustang.


Embora os pilotos da ONU tenham conseguido abater vários MiGs com suas aeronaves inferiores, eles não conseguiam proteger efetivamente os bombardeiros pesados. Em abril de 1951, os MiG-15 derrubaram sem perdas três B-29 - apesar de uma força de escolta de cem caças F-80 e F-84. Os Estados Unidos interromperam os mais precisos ataques de bombardeio diurno para operações noturnas. Enquanto isso, a Força Aérea dos EUA enviou rapidamente para a Coreia algumas dezenas de seu único caça avançado de asa enflechada - o F-86 Sabre. Nos três anos seguintes, Sabres e MiGs com acabamento sem pintura entrariam em conflito em inúmeras batalhas aéreas sobre o 'MiG Alley' ao longo da fronteira chinesa.

O F-86A e o MiG-15bis eram bem parecidos, mas o caça soviético manteve pequena vantagem na taxa de subida, manobrabilidade e teto de serviço. O Sabre foi equipado com seis metralhadoras de calibre .50, enquanto o MiG-15 tinha um soco mais pesado com seus canhões duplos de 23 mm com oitenta balas cada e uma única metralhadora de 37 mm com quarenta cartuchos. Os canhões soviéticos mais mortíferos eram úteis para abater grandes bombardeiros, mas tinham velocidade de saída mais lenta (e incompatível), tornando-os difíceis de atingir os velozes caças.

Os soviéticos sabiam que tinham um vencedor no MiG-15, codinome "Fagot" pela OTAN e produziram 12.000 do velozes jatos.
Os soviéticos sabiam que tinham um vencedor no MiG-15, codinome "Fagot" pela OTAN e produziram 12.000 do velozes jatos.

Em última análise, o treinamento e as táticas dos pilotos moldariam o resultado da guerra aérea mais do que as diferenças técnicas. Enquanto os pilotos do Sabre eram majoritariamente veteranos da Segunda Guerra Mundial, os MiGs sobre a Coreia eram geralmente pilotados por pilotos soviéticos competentes, mas não tão experientes, com uma pitada de veteranos. (A participação das unidades de combate soviéticas não foi reconhecida pelos dois lados para evitar tensões crescentes.) Com o tempo, os soviéticos também treinaram mais pilotos chineses e norte-coreanos, que supostamente tiveram que superar déficits em educação e até desnutrição. As unidades de MiGs chinesas e posteriormente da Coreia do Norte começaram a responder por uma parcela maior das sortidas iniciadas no final de 1951 e sofreram maiores perdas.

No final da guerra, a Força Aérea dos EUA alegou ter abatido 792 MiG-15 por setenta e oito Sabres perdidos em combate ar-ar, uma taxa de abate de 10: 1 - enquanto os estados comunistas alegavam ter saído à frente com 1.100 aeronaves da ONU abatidas, incluindo 650 Sabres! Provavelmente, é mais informativo comparar as perdas autorreferidas: a Força Aérea dos EUA relatou a perda de oitenta e quatro Sabres F-86 para todas as causas na Coreia, e um número semelhante de outros tipos especificamente para caças inimigos (e muitos mais para fogo terrestre e acidentes). Os soviéticos registraram a perda de 335 MiG-15, os chineses 225 e as fontes não-oficiais da Coreia do Norte alegam cerca de 100 perdas - mas esses números incluem acidentes.


O MiG-15 logo evoluiu para dois sucessores: o altamente manobrável MiG-17 e o supersônico MiG-19, que tiveram suas próprias batalhas com jatos estadunidenses durante a Guerra do Vietnã. Os MiG-15 e 17 chineses combateram com os F-86 dos nacionalistas chineses no Estreito de Taiwan no resto da década de 1950, e o MiG do Exército Popular de Libertação tornou-se o primeiro avião abatido por um míssil ar-ar guiado quando foi atingido por um Sidewinder buscador de calor. Embora o MiG-15 não tenha enfrentado combate após a década de 1950, os treinadores de dois lugares MiG-15UTI continuaram a prestar serviços valiosos por muitas décadas - embora tragicamente, o famoso cosmonauta soviético Yuri Gagarin tenha morrido enquanto pilotava um em 1968, quando seu MiG-15 foi sacudido pela turbulência da passagem de um interceptor Su-15.

O motor turbojato Nene deu à União Soviética uma vantagem notável na corrida para projetar caças a jato de alto desempenho no início da Guerra Fria. Diferente de muitos episódios de curta duração tecnológica, o desconcertante erro britânico teria consequências no campo de batalha em apenas alguns anos. Embora as disparidades no treinamento e na experiência dos pilotos tenham resultado em uma taxa de abates desigual contra o F-86 Sabre, a ameaça representada pelos MiGs entretanto obrigou a Força Aérea dos EUA a adaptar suas táticas e abandonar sua campanha estratégica de bombardeio diurno.

Traduzido por Pacto de Varsóvia.

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