Por que Brasil e Rússia contam a história da 2ª Guerra Mundial de maneira diferente?


09:00 07.05.2020 (atualizado 12:35 07.05.2020) Sputnik

Por que Brasil e Rússia contam a história da 2ª Guerra Mundial de maneira diferente?

Por que o Brasil comemora o dia da Vitória na Segunda Guerra Mundial no dia 8 e a Rússia no dia 9 de maio? Qual foi o momento decisivo do conflito, o Dia D ou a Batalha de Stalingrado? A Sputnik explica as diferenças de abordagem sobre a guerra no Brasil e na Rússia.


Neste sábado, 9 de maio, a Rússia comemora os 75 anos da Vitória na Segunda Guerra Mundial. Para os russos, o conflito começou em 1941, enquanto no Brasil marcamos o início do conflito em 1939. Essa é só uma das diferenças de como o Brasil e a Rússia contam a história da Segunda Guerra Mundial.

A Sputnik Brasil conversou com Rodrigo Ianhez, historiador brasileiro formado na Rússia, para entender essas diferenças e conhecer melhor a interpretação russa da tragédia mais consequente do século XX.


Por que os russos consideram que a guerra começa em 1941?


Para começo de conversa, os russos consideram que a guerra teve início em 1941, enquanto no Brasil consideramos que o conflito começa em 1939, com a invasão alemã da Polônia.

Ianhez, mestre em história pela Universidade Estatal de Moscou (MGU, na sigla em russo), explica que 1941 é o ano da a invasão da União Soviética pelos alemães, portanto, "os russos consideram 1941 o início da Grande Guerra Patriótica", que consiste na guerra contra a invasão e ocupação alemã.

No entanto, os russos "não negam ou ignoram a existência da Segunda Guerra Mundial de 1939 a 1945", mas "consideram que dentro dela há um conflito que se estende de 1941 a 1945, que se chama Grande Guerra Patriótica."

"É um recorte histórico", explicou, lembrando que a determinação do ano de 1939 como início do conflito também é um recorte: "Antes de 1939, houve a anexação da Áustria e a divisão da Tchecoslováquia", eventos que também poderiam marcar o início da Segunda Guerra Mundial, argumentou.


Dia D vs Stalingrado: qual a batalha que virou o jogo?


No Brasil, normalmente a historiografia aponta o Dia D, quando tropas britânicas e norte-americanas desembarcaram na Europa continental, como o momento decisivo para a derrota da Alemanha nazista.

Apesar de "não negar a importância" desse acontecimento, a historiografia russa aponta a "Batalha de Stalingrado como momento-chave" para a queda de Hitler, conta Ianhez. A vitória da URSS em Stalingrado marcou a primeira derrota da Alemanha na guerra.

Stalingrado, cidade na região sul da Rússia, que hoje é chamada de Volgogrado, viveu a maior batalha da história mundial "em quantidade de soldados envolvidos", entre 17 de julho de 1942 e 2 de fevereiro de 1943.

"Stalingrado foi a primeira vez na história que um exército alemão foi capturado e a primeira vez que um marechal de campo alemão se rendeu, o marechal [Friedrich] Paulus", explicou.


O Dia D, por sua vez, ocorreu mais de um ano depois, em 6 de junho de 1944, quando a Alemanha já estava relativamente enfraquecida e o Exército da URSS avançava rapidamente rumo a Berlim.

"O Dia D, no verão de 1944, ocorreu enquanto a Rússia realizava a operação Bagration [...] estava retomando a Ucrânia e já passando as fronteiras da antiga União Soviética", com a Alemanha na defensiva.

O Dia D marca o momento no qual a Alemanha passou a lutar em dois fronts: no oriente, contra a Rússia, e no ocidente, contra os EUA, o Reino Unido e seus aliados.

A historiografia russa "se incomoda com a narrativa americano-britânica de que o Dia D seria a virada" por considerar que seus aliados EUA e Reino Unido demoraram para abrir o front ocidental contra a Alemanha, "deixando os soviéticos lutando sozinhos" contra os nazistas "no front oriental".

Centro da cidade de Stalingrado após a batalha contra os nazistas, durante a Grande Guerra pela Pátria, em 1943.
Centro da cidade de Stalingrado após a batalha contra os nazistas, durante a Grande Guerra pela Pátria, em 1943.

Essa demora das potências ocidentais em desembarcar na Europa "custou a vida de muitos soldados soviéticos", lembrou Ianhez.

Por que o dia da Vitória é comemorado em datas diferentes?


Outra diferença entre a abordagem brasileira e russa sobre a Segunda Guerra Mundial é a data de comemoração do Dia da Vitória: no Brasil é comemorado no dia 8 e na Rússia no dia 9 de maio.

Ianhez conta que "os soviéticos tinham combinado com as forças aliadas que a assinatura da capitulação da Alemanha seria feita no dia 9 de maio. No fim, acabou sendo feita no dia 8".

A antecipação não causou nenhum inconveniente entre as partes, uma vez que "se considerarmos o fuso horário, já era dia 9 em Moscou."

Pelo contrário, a diferença das datas se mostrou bastante conveniente, uma vez que líderes ocidentais podem comemorar o fim da guerra em seu país natal no dia 8 e depois voar a Moscou para acompanhar os desfiles do Dia da Vitória, no dia 9.


Qual a polêmica sobre a capitulação do Japão?


Não é só a data do fim da guerra que é diferente no Brasil e na Rússia. A capitulação do Japão, alguns meses depois, em setembro, também está sujeita à diferentes interpretações.

"A historiografia ocidental sublinha como o principal motivo da rendição do Japão o ataque nuclear [realizado pelos EUA] em Hiroshima e Nagasaki. Enquanto a historiografia russa coloca como principal motivo a retomada da Manchúria pelo Exército soviético", explicou Ianhez.

A Manchúria, território chinês ocupado pelo Japão durante a guerra, era "o principal centro de poder de Tóquio no continente".

"A partir do momento que a URSS entrou na guerra contra o Japão e tomou a Manchúria, os japoneses perderam as chances de continuar no conflito", disse o historiador.

A Manchúria era um território considerado difícil de ser conquistado: "Só os chineses estavam combatendo naquela área, em condições relativamente precárias." A URSS, por outro lado, "tinha o maior Exército mobilizado da história mundial, com dez milhões de homens", relatou o historiador.

Partisans em missão de reconhecimento, durante a Grande Guerra pela Pátria, em 1941.
Partisans em missão de reconhecimento, durante a Grande Guerra pela Pátria, em 1941.

A historiografia russa defende que, "se a URSS não tivesse tomado a Manchúria, a guerra contra o Japão poderia ter se prolongado por muitos anos", disse.

O papel soviético na vitória sobre o Japão, muitas vezes ignorado, em função do impacto das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, pode ganhar novo relevo neste ano de 2020.

"Com o cancelamento do grande desfile do Dia da Vitória em Moscou, em função da COVID-19, existe a possibilidade de as comemorações serem realizadas em setembro, na data da vitória sobre o Japão" pela primeira vez na história, contou Ianhez.


Monumentos históricos


Essas diferenças entre as abordagens historiográficas são normais e, inclusive, contribuem para o debate entre especialistas. No entanto, algo muito diferente é o revisionismo histórico que busca modificar fatos para atingir objetivos políticos. Nesta seara, a Rússia tem algumas demandas à comunidade internacional, apontou o historiador Ianhez.

"A principal demanda dos russos, no nível oficial, é a preservação e o respeito aos memoriais soviéticos que se localizam na Europa", disse. "Alguns países, especialmente aqueles que durante a Guerra Fria pertenceram ao bloco socialista [...] não garantem a preservação desses monumentos."

A retirada de monumentos e memoriais em homenagem aos soldados soviéticos que morreram no campo de batalha gera atrito entre Moscou e países como a Polônia, a República Tcheca e países bálticos.

Combatente soviético estabelece contato com o front, no primeiro ano da Grande Guerra pela Pátria, em 1941.
Combatente soviético estabelece contato com o front, no primeiro ano da Grande Guerra pela Pátria, em 1941.


"Já ocorrem casos de vandalismo contra os monumentos soviéticos, inclusive contra monumentos funerários, e essa é uma questão muito sensível para os russos", explicou.

Por outro lado, "o país que mais leva a sério, respeita e mantém os monumentos soviéticos é a Alemanha, aonde todos os memoriais estão preservados."

Monumento soviético erguido em Treptower Park, em Berlim, fotografado em 14 de março de 2020.
Monumento soviético erguido em Treptower Park, em Berlim, fotografado em 14 de março de 2020.

No centro da capital alemã, o Memorial Tiergarten homenageia os 80 mil soldados soviéticos que morreram na Batalha de Berlim, e o parque Treptower abriga cemitério no qual estão sepultados cinco mil soldados do Exército Vermelho.


Reconhecimento do papel da Rússia


O reconhecimento do papel da Rússia na vitória sobre o nazismo é essencial para "compreendermos a Segunda Guerra Mundial, que é o momento mais trágico do século XX", cujas "consequências são sentidas até hoje na geopolítica mundial."

"É também necessário reconhecermos a tragédia humana. A URSS perdeu entre 18 e 30 milhões de pessoas durante a guerra. Todas as famílias soviéticas perderam pelo menos um membro no front", nota.

Para conhecer melhor o papel da União Soviética na guerra contra o nazismo, Ianhez recomenda o livro "Moscou 1941", escrito pelo então embaixador britânico na Rússia, Rodric Braithwaite, que relata "como as pessoas simples na URSS encararam" a batalha pela defesa da capital.

Pilota soviética Nadezhda Vasilyevna Popova, especialista em bombardeios noturnos, posa ao lado de seu biplano, durante a Grande Guerra pela Pátria.
Pilota soviética Nadezhda Vasilyevna Popova, especialista em bombardeios noturnos, posa ao lado de seu biplano, durante a Grande Guerra pela Pátria.

Para reconhecer "a dimensão humana do conflito", o historiador recomenda o livro da escritora bielorrussa laureada com o Prêmio Nobel, Svetlana Aleksievich "A guerra não tem rosto de mulher", que ressalta o papel das mulheres que lutaram na guerra, dentro e fora do front.

Para quem gosta de cinema, Ianhez recomenda "o melhor filme de guerra que eu já vi – 'Vá e Veja'", do diretor Elem Klimov, que retrata "a barbárie que foi o front oriental".

No dia 9 de maio, a Rússia, país aliado do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, comemora os 75 anos da Vitória sobre o nazismo. A Sputnik Brasil traz uma série de reportagens especiais para marcar a data e revisitar os momentos marcantes do conflito.

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